O governo brasileiro está na linha-de-frente da promoção do software livre nas suas mais diversas instâncias. Você está a par disto?
Torvalds – Estou, embora não siga o assunto de perto. Funciona um pouco como os fornecedores comerciais. Acho muito importante ver todos estes diversos grupos de interesse envolvidos, mas eu pessoalmente sou motivado pela tecnologia e não quero me envolver diretamente com os interesses dos diferentes grupos.
Este é mais um exemplo da importância dos usuários, e como o código aberto permite aos usuários tomar suas próprias decisões ao se envolver com o desenvolvimento. Falando estritamente, um governo é apenas um outro usuário, e que tem o seu próprio conjunto de interesses e de motivações.
Você colabora na divulgação do Linux e do software livre?
Torvalds – Não, realmente. Não sou um divulgador, um cara de tecnologia. No que me concerne, a beleza do código aberto está no fato de diferentes grupos poderem trabalhar nas partes que acreditam ser importantes, e isto é mais do que apenas tecnologia – trata-se de documentação, promoção, empacotamento, distribuição, ensino, etc.
Nações e governos têm as suas próprias metas e agendas, e o código aberto é um meio excelente de conseguir várias coisas: independência tecnológica (ou “co-dependência” – não se fica totalmente dependente de um único fornecedor ou de um ouro país que não seja confiável) e ter a certeza de que existe grande volume de manuais para entender a tecnologia.
Eu aprecio como o código aberto possibilita coisas assim, mas pessoalmente acabo me preocupando apenas com a tecnologia. Outros se preocupam e trabalham com os aspectos que consideram relevantes, e o resultado final (novamente) é uma infra-estrutura azeitada ao invés da visão de uma única pessoa ou empresa do que deve ser feito.
O setor privado não está adotando o Linux e o software livre tão rápido quanto esperado. Por que será que tantas empresas ainda têm um pé atrás com relação ao uso do software livre?
Torvalds – Na verdade eu acho que o ritmo de adoção é bastante elevado, mas o que as pessoas de vez em quando não percebem é que existe uma enorme inércia na troca de sistemas operacionais. A Microsoft possui uma grande vantagem só graças à base histórica instalada. E nos servidores maiores, ainda continuam rodando UNIX. Essas coisas não levam um ano ou dois. São necessárias uma ou duas décadas. Tenho a vantagem de ter visto o Linux se desenvolver (e ser aos poucos adotado) nos últimos 16 anos, enquanto muitos outros usuários só olharam para os últimos anos – e creia em mim, caminhamos um longo percurso nesses 16 anos. O caminho à frente ainda é longo? Lógico. Existem inúmeras questões relacionadas à tecnologia e à infra-estrutura, assim como à percepção humana, que ainda precisam ser vencidas.
A Microsoft declarou recentemente que programas livres como o Linux, o OpenOffice e alguns softwares de e-mail violam 235 das suas patentes. Mas a empresa afirmou que não irá processá-los, pelo menos por enquanto... Esta é a ponta do iceberg de um novo pesadelo legal?
Torvalds – Eu acho que este é mais um tiro na guerra do “FUD” (fear, uncertainty e doubt, ou medo, incerteza e dúvida, termo usado em qualquer estratégia voltada para causar insegurança nos consumidores de uma empresa com relação aos seus produtos). A Microsoft está passando por um mau bocado competindo pelo mérito tecnológico, daí tradicionalmente eles procuram concorrer no preço, mas obviamente esta estratégia também não funciona, não contra o código livre. Assim, continuam empurrando pacotes e vivendo da inércia do mercado, mas eles procuram alimentar a inércia com o FUD.
Você está preparado para essa batalha? Será que Linus Torvalds e a comunidade do software livre podem vencer esta guerra contra as legiões de Bill Gates?
Torvalds – Não vejo isso como uma “batalha”. Faço o que faço porque gosto e acho que vale à pena, e não estou nessa por causa de nenhuma cruzada anti-Microsoft. Usei alguns produtos da Microsoft ao longo dos anos, mas nunca nutri uma forte antipatia contra eles. A Microsoft simplesmente não me interessa. E o movimento de código aberto não é um movimento anti-Microsoft, apesar de haver certos grupos que talvez participem devido aos seus sentimentos anti-Microsoft.
O código aberto é um modelo sobre como fazer coisas, e eu acredito que este é um jeito muito melhor de fazer as coisas. O código livre vai tomar conta do mercado não por causa de nenhuma “batalha”, mas simplesmente porque jeitos melhores de fazer as coisas eventualmente tomam o lugar de métodos inferiores.
Por acaso a “ciência” é uma batalha contra a “ignorância”? Não, a ciência simplesmente é. E ela funciona tão bem que assume o lugar de velhas noções ignorantes. Não precisamos nos preocupar com gatos pretos cruzando a nossa frente, passar por baixo de escadas ou espelhos quebrados, pois hoje sabemos como o mundo funciona, e nos demos conta de que gatos pretos não são mais um sinal de perigo.
Uma questão polêmica que veio ao público em 2006 foi a parceria entre a Microsoft e a Novell para a interoperabilidade entre o Windows e o Suse Linux. Logo após a parceria ser anunciada, a Red Hat declarou que não iria “vender sua alma” como a Novell. Você acha que a Novell traiu os princípios do código aberto?
Torvalds – Achei toda essa discussão muito interessante, não por causa de nenhuma questão ligada à Novell versus Microsoft, mas porque as pessoas ao falar disso mostraram os seus próprios pontos-de-vista. A parceria por si só me pareceu algo sem o menor interesse, nada comparado à reação das pessoas e como tudo aquilo foi noticiado.
Alguns analistas consideram estes tipos de acordos como positivos aos consumidores, além de popularizar o Linux. Isto porque os consumidores terão maior suporte dos fornecedores em termos de interoperabilidade e rodarão seus aplicativos melhor. Você concorda?
Torvalds – Não sei. Não sei como tudo isso vai acabar, mas acho que seria mais saudável para todo o mundo se não houvesse esse ódio mortal de ambos os lados com relação ao acordo Novell-MS. Já disse que a Microsoft não me interessa, mas parece que certas pessoas na Microsoft estão muito preocupadas com o código livre, e certas notícias idiotas como quando Steve Ballmer rotulou o código aberto de “câncer” simplesmente não ajudam (“O Linux é um câncer que, sob um ponto de vista de propriedade intelectual, ataca tudo o que toca”, Chicago Sun-Times, junho de 2001). Prefiro me ater à tecnologia. O mercado tomará conta de si mesmo. Fornecer aos consumidores o que eles querem é o modo para se progredir, e não tentar controlá-los ou espalhar propaganda enganosa.
A Free Software Foundation (FSF) liberou a versão 3 da licença pública GNU (GPLv3). O que achou dela?
Torvalds – Pessoalmente considero que o GPLv2 é uma licença superior, mas cada um tem a sua própria opinião, e muitos projetos irão usar a GPLv3. De novo, não é nada de mais, temos cerca de 50 licenças diferentes de código aberto e o GPLv3 é só mais uma. Eu não uso a licença BSD, mas um monte de gente usa. Escolhe-se aquela que melhor nos convêm.
É interessante notar que tecnologias abertas não-proprietárias como o Linux e a Web foram criadas na Europa, e não nos EUA, o país aonde “não existe almoço grátis”. Como você fez para se adaptar ao “American way of life”, onde você é respeitado pelo que você possui ou então pelo que representa, mas não pelo que sé. Não sente falta da Finlândia?
Torvalds – Na verdade eu gosto bastante dos EUA sob diversos aspectos. Tendo uma formação européia baseada em valores sociais, e conhecendo outros lugares do mundo, posso dizer que eu absolutamente detesto as políticas insanas do governo americano nos últimos sete anos, mas essa é uma digressão. Mudar-se da Finlândia pra cá não foi um grande choque – ser pai pela primeira vez foi uma mudança muito maior, e as duas coisas ocorreram mais ou menos na mesma época (minha filha mais velha tinha apenas dez semanas quando nos mudamos).
Ambos os sistemas possuem os seus lados bons. Vir da Europa fez com que fosse muito fácil para eu perceber que começar uma empresa seria uma tolice (pelo menos é o que eu acho), quando só estava interessado na tecnologia. Os valores sociais são mais fortes na Europa. Os americanos parecem “acreditar” que são mais espirituais, e certamente aqui tem um monte de gente que vai à igreja, mas em muitos aspectos as pessoas são quase que só voltadas para o dinheiro, e uma das coisas que eu menos gosto nos EUA são as suas desigualdades sociais. Uma das razões pelas quais eu hoje moro em Portland, no Oregon, é porque acredito que os valores sociais aqui são mais próximos dos da Europa do que em qualquer outro lugar nos EUA.
Ao mesmo tempo, a Europa é um pouco séria demais. Na Finlândia, quase todos os centros de alta tecnologia giram em torno da Nokia e dos celulares. Foi muito divertido viver no Vale do Silício por sete anos e participar daquela atmosfera maluca da tecnologia, aonde não havia apenas um objetivo, mas milhares de empresas fazendo coisas totalmente diferentes e tentando ganhar dinheiro. E ocasionalmente conseguindo em grande estilo.
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