Muitos programadores fizeram milhões com as novas tecnologias, mas você preferiu permanecer desenvolvendo o Linux. Não acha que perdeu a chance de uma vida ao não criar um sistema proprietário?
Torvalds – Não, de verdade. Em primeiro lugar, eu vivo muito bem. Tenho uma casa de um bom tamanho e com um belo jardim, onde de vez em quando cervos surgem para comer as rosas (minha mulher prefere as rosas, eu prefiro os cervos, mas no fundo nós não ligamos pra isso). Tenho três filhos e sei que posso bancar a educação deles. Do quê mais eu preciso?
O ponto é o seguinte: um bom programador ganha bem. Um sujeito conhecido mundialmente ganha ainda melhor. Eu simplesmente não preciso criar empresa nenhuma. Além de esta ser a coisa menos interessante que eu possa imaginar para fazer. Eu ODEIO papelada. Jamais poderia tomar conta de empregados mesmo que tentasse. Uma companhia que eu criasse jamais teria sucesso – eu simplesmente não estou interessado! Então, ao invés disso, eu tenho uma boa vida, faço algo que realmente me interessa e que ao mesmo tempo faz a diferença para as pessoas, não só pra mim. E isso me faz bem.
Portanto, acho que teria perdido a chance de uma vida se NÃO tivesse tornado o Linux largamente disponível. Se tivesse tentado torná-lo comercial, ele jamais teria se saído tão bem, nunca teria sido tão relevante, e provavelmente eu estaria estressado. Estou muito feliz com as minhas opções de vida. Eu faço o que me importa e sinto que estou fazendo a diferença.
Você não temia perder a propriedade intelectual quando liberou o Linux?
Torvalds – Eu não pensava nesses termos (e ainda não penso). Nunca se tratou de algo ligado à “propriedade individual”, mas ao esforço que havia despendido no projeto. Mas sim, eu fiquei um pouco preocupado, pois sendo um desenvolvedor totalmente desconhecido na Finlândia, alguém talvez decidisse pura e simplesmente ignorar minha licença, usar o meu código e não fornecer de volta suas modificações. Por outro lado, o que no fundo eu tinha a perder?
Além disso, olhando para trás, francamente, não é algo com o que valha a pena se preocupar. Em primeiro lugar, mesmo que eu fosse o cara mais esperto do planeta, e compilasse algo realmente brilhante, ainda assim levaria anos para fazê-lo. Em outras palavras, levaria muito tempo antes que o resultado valesse a pena para alguém roubá-lo. Portanto ao torná-lo público desde o início, não tinha que me preocupar com pessoas ou empresas que quisessem roubar o meu trabalho. E quando o código tornou-se algo valioso, o projeto já era suficientemente conhecido de modo que ninguém poderia fraudá-lo em larga escala sem ser pego. Em larga medida foi de fato a liberdade do projeto que garantiu a sua segurança.
Se existem pessoas usando o Linux sem respeitar a licença? Claro! O copyright não é algo necessariamente honrado em todas as partes do mundo, e existe gente inescrupulosa e empresas que agem deliberadamente fora da lei. São coisas que acontecem. Mas uma vez que o projeto se torna grande o suficiente para que estas coisas aconteçam, não há mais razão para se preocupar. Aqueles que fazem mal uso do projeto não estão limitando o acesso aos outros, mas a eles mesmos! Se alguém usa o Linux sem seguir o GPLv2, está limitando o seu próprio mercado. Não pode vendê-lo legalmente no mundo desenvolvido sem se preocupar com o lado legal, e não obterá a vantagem do código livre que as empresas que seguem a licença obtêm, isto é, ter seus aprimoramentos acrescentados ao produto. Esta era uma coisa que me preocupava antes de liberar o Linux, mas ao longo dos anos me dei conta que não valia a pena dar importância a isto. Existem gente e empresas sem escrúpulos? Sim, mas não são eles que fazem importam ou fazem a diferença.
Quais são os benefícios do Linux para os usuários, sem falar no fato de não terem que pagar por ele?
Torvalds – A maior das vantagens tem muito pouco a ver com dinheiro, e tudo a ver com a flexibilidade do produto. Esta flexibilidade deriva do fato de milhares de outros usuários terem usado o produto e terem podido externar suas opiniões e tentar aperfeiçoá-lo.
Não importa se 99.99% dos usuários do Linux jamais irão fazer uma única modificação. Se existem alguns milhões de usuários, mesmo que 0,01% deles acabem se tornando desenvolvedores, isso terá muita importância. Mas francamente, mesmo aqueles que não são desenvolvedores acabam nos ajudando ao reportar problemas, fornecendo feedback. Ainda assim, alguns deles pagam pelo produto, podendo deste modo tocar empresas que, por conseguinte, têm o incentivo de contratar profissionais que querem desenvolver, criando um ciclo virtuoso.
É por isso que o fato de não ter que pagar pelo programa é uma pequena parte do todo – significa que ele é barato e fácil de experimentar, reduzindo para distância até o envolvimento. Mas a real vantagem é como o processo leva a um melhor modelo de desenvolvimento, e como isto por sua vez resulta num produto melhor! Mas sim, isso leva muitos anos. Programar dá muito trabalho, e montar toda a infra-estrutura para criar algo útil é inimaginavelmente difícil e custoso. Mas se você distribuir o trabalho entre milhares de desenvolvedores e centenas de empresas, a coisa funciona, e nenhum indivíduo ou companhia acaba tendo que pagar a conta.
O que mais importa para você, a enorme base de desenvolvedores do Linux ou sua gigantesca base de usuários?
Torvalds – Não os vejo como entidades separadas. Penso que qualquer programa só é bom se for útil. Sendo assim, a base de usuários é a mais importante, porque um programa sem usuários perde todo o sentido. Hardware e software são puramente ferramentas. Não importa quão tecnicamente boa seja uma ferramenta, ela não significa nada até que alguém comece a usá-la de fato.
Mas não acho que exista uma diferença entre “usuários” e “desenvolvedores”. Nós todos somos “usuários”, sendo que certo tipo de “usuário” é também uma pessoa que faz coisas, e que gosta de programar. Um código aberto permite que tipos especiais de usuários façam coisas que de outra forma não fariam! Seriam eles usuários especiais que fazem as coisas mais importantes? Num certo sentido, sim. Mas para chegar neste ponto é preciso em primeiro lugar ser um usuário interessado. Daí porque uma base de usuários grande e variada é importante, de modo a obter uma base razoável e variada de desenvolvedores!
Quero salientar a importância desta variedade. Um monte de projetos tenta se especializar numa área tanto que apenas atraem um tipo específico de usuário, e por causa disso atraem apenas um tipo específico de desenvolvedor. Sempre achei que essa fosse uma má idéia. Fazer pontaria para um nicho específico significa criar uma base de usuários muito unilateral que acaba fornecendo decisões de projeto unilaterais, tornando a base de usuários ainda mais unilateral, criando um círculo vicioso.
Acredito que esta foi uma das coisas que destacou o Linux das diversas versões comerciais do UNIX. Estes tentavam buscar “usuários reais do UNIX”, enquanto o Linux funcionava mais na base do “qualquer usuário importa – tudo bem se você só usou DOS e programou em BASIC”. O resultado final tornou o Linux muito mais redondo. É por isso que os usuários são importantes, e que os desenvolvedores talvez sejam “mais importantes”, apesar de na realidade eles formarem um fenômeno secundário.
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