Pessoalmente, tenho visto surgir robôs assustadores, em especial aqueles desenvolvidos para o Pentágono. Eles se locomovem como se estivessem vivos de verdade. Você acha que a era do Exterminador do Futuro está próxima?
Wozniak - Ela está se aproximando, mas muito lentamente. Estas máquinas que parecem andar usam dispositivos especiais de balanceamento. O modo como o ser humano anda é praticamente impossível de copiar. Então, essa aproximação acontecerá um pequeno passo de cada vez. Todos estes robôs irão fazer muito bem apenas uma única coisa, mas nunca iremos ver um robô fazer uma xícara de café, nunca! Eu não acredito que veremos isso algum dia.
Espero que você tenha razão.
Wozniak - Pense nos passos que um ser humano precisa dominar para fazer uma xícara de café e verá que eles cobrem basicamente uns dez, vinte anos de aprendizado. Para um computador fazer a mesma coisa ele terá que passar pelo mesmo aprendizado, andando até sua casa usando algum tipo de sistema óptico de visão, abrindo a porta da maneira correta, virando para o lado errado, retrocedendo, procurando pela cozinha, detectando onde está a máquina de café, colocando o filtro de papel, sabendo como ligá-la, o que muda de um modelo para outro... Não se podem programar essas coisas, é preciso aprendê-las, é preciso olhar como outras pessoas fazem café. É este o tipo de lógica que o cérebro humano realiza para fazer uma xícara de café. Nunca veremos surgir a inteligência artificial. Pense no seu cachorro ou no seu gato. Eles são muito mais espertos do que qualquer computador.
Você conta na sua autobiografia que quando conheceu Steve Jobs notou que vocês possuíam personalidades complementares. Você era o técnico enquanto ele tinha a visão de negócios; você era tímido e ele, extrovertido. Quando e como se conheceram?
Wozniak - Foi no início dos anos 70, nos meus anos de faculdade, quando ele ainda estava no colegial. Eu já projetava computadores e um amigo me disse: você precisa conhecer o Steve Jobs, porque ele gosta de eletrônica e também gosta de fazer piadas. Então fomos apresentados. Nós adorávamos eletrônica e também adorávamos tentar conectar chips. Muito pouca gente, especialmente naquela época, fazia qualquer idéia do que eram os chips, como operavam e o que podiam fazer. Como eu tinha projetado diversos computadores, estava à frente dele nessa área, mas assim mesmo tínhamos interesses em comum. Tínhamos uma atitude independente com relação às coisas do mundo, pensávamos por nós mesmos e éramos inteligentes o suficiente para não ir atrás das idéias que estavam na moda, como a contracultura. Steve tinha pouca ligação com a contracultura e eu era totalmente alheio a ela.
Vocês ainda são amigos? Ainda trocam idéias sobre tecnologia?
Wozniak - Sim, ainda somos amigos. Conversamos com freqüência, mas não tanto sobre tecnologia quanto antes.
Quando assisti ao filme Piratas do Vale do Silício, de 1999, fiquei com a impressão de que você era o único cara do bem no meio de um monte de gente do mau...
Wozniak - É claro que para alguns essa visão procede. Pode parecer assim, porque algumas vezes é preciso tomar certas decisões de negócios para fazer as coisas funcionarem. Acontece que eu era apenas o único cara que não estava fazendo aquilo colocando o dinheiro em primeiro lugar. Eu queria fazer coisas legais, bons produtos para ajudar as pessoas. Nunca deixei o dinheiro ditar o caminho para onde eu iria. Não queria assumir uma atitude crítica nem forçar o pessoal da empresa a trabalhar. Queria que cada um deles vivesse sua própria vida. Realmente, não me importava que outras pessoas achassem as minhas idéias melhores do que as delas. Eu desejava que o pessoal que trabalhava com a gente quando abrimos a Apple fosse recompensado caso não possuíssem a ações da empresa. E ajudei-os muito nesse sentido, principalmente com as minhas próprias ações.
Por que você saiu da Apple?
Wozniak - Sendo o tipo de engenheiro que sou, eu projetava coisas do meu próprio jeito, trabalhando sozinho. Mas a companhia havia crescido até o ponto de ter organizado um departamento de engenharia. Ainda assim, eu podia circular pela empresa e fazer qualquer projeto que desejasse. Mas queria trabalhar com gente de fora, fazendo novos produtos, fazendo coisas para mudar o mundo. Na verdade eu jamais saí da Apple. Apenas fui criar novas empresas e permaneci como empregado. Nunca deixei de ser empregado da Apple. Até hoje recebo um pequeno cheque todos os meses.
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