Foi você quem formulou o termo Web Semântica? É a mesma coisa que a Web 3.0? Qual é a diferença entre a Web 2.0 e a 3.0?
Sim, fui eu. Foi em 1999, no meu livro "Weaving the Web" (Tecendo a Teia). A Web 2.0 é um nome para descrever como operam os arquivos usados na web. Com relação ao conteúdo gerado pelos usuários, isso ocorre quando as pessoas acessam web sites e classificam (tagging) informações, sobem uma fotografia ou constroem sites comunitários. A Web 2.0, portanto, é baseada em sites comunitários. Mas não fui eu quem inventou este termo. Foi Tim O’Reilly, em 2005.
Sobre a Web 3.0, algumas pessoas usam este termo para definir uma nova arquitetura de dados. Já outras usam como uma forma de regulamentação da tecnologia da web. Mas considere o futuro da tecnologia da web. Um problema típico bem conhecido dos arquivos 2.0 é que seus dados não se encontram num site, mas num banco de dados. Eles não estão na web, não podem ser manipulados. Pegue por exemplo um site profissional com informações sobre os seus colegas de trabalho, um outro site com informações sobre os seus amigos, além de sites de diferentes comunidades. Na Web 2.0 você não pode enxergar o quadro completo; ninguém pode ver o quadro completo. É por isso que algumas pessoas dizem que a Web 3.0 será uma realidade quando os sites exibirem dados que possam ser manipulados.
Vejamos um outro exemplo: se um determinado site encontra informações úteis sobre os meus amigos no meu blog, então eu posso definir um ícone para informar ao meu computador: “extraia estes dados, analise-os e os adicione aos dados que tenho de outros sites, para então exibi-los todos juntos”.
Quando a Web Semântica atingir todo o seu potencial, ela desencadeará um segundo boom da internet?
Bem, sob certo ponto de vista isso já está acontecendo. Mas eu não acho que a web já atingiu todo o seu potencial, e ela já está aí faz quase 16 anos. A Web Semântica irá decolar quando as pessoas começarem a colocar links públicos de dados na web, adicionando dados e arquivos pessoais. Mas acredito que ainda vai levar muitos anos, porque muita coisa terá que ser feita para torná-la uma realidade.
O que é a Neutralidade na Net? Qual é a sua posição com relação a isto?
Trata-se do seguinte: quando você e eu pagamos para nos conectar na internet, podemos nos comunicar não importando quem quer que nós sejamos. O que mais chama atenção hoje na rede são os vídeos. Eles estão tomando conta da net. Uma empresa como o YouTube atrai muita atenção porque transmite vídeo pela web, aproveitando-se do fato de que, em muitas regiões do mundo, a largura de banda está se tornando cada vez maior.
Agora suponha que eu esteja em Massachusetts, seja um fã de cinema independente e queira encontrar um filme brasileiro. Eu entro na internet para procurar no Brasil os meus diretores e filmes independentes prediletos. Mas de repente o provedor de acesso em Massachusetts bloqueia a transmissão dizendo: “Não vamos deixar você fazer isso, porque nós vendemos filmes. Sim, nós fornecemos a você acesso à internet, mas impedimos que assista filmes. Queremos controlar quais filmes você compra.”
Eu já vi empresas de tevê a cabo tentarem impedir o uso de ligações telefônicas na internet. Isso me preocupa. Eu não quero que isso aconteça. Acredito ser muito importante manter a internet aberta para quem quer que seja. É isso que chamamos de Neutralidade na Net. É imprescindível preservá-la para o futuro.
Em 2003, o governo brasileiro ao lado de outras nações propôs uma administração internacional para a internet, espelhada nos exemplos da União Européia e das Nações Unidas. Será que algum dia Washington irá permiti-lo?
Acredito que a internet irá se burocratizar aos poucos. Isso é inevitável. É importante permitir que as pessoas de diversos países, dos países emergentes, desenvolvam o seu uso da internet o mais rápido possível. Mas a administração de algo tão grande nunca poderá ser controlada por uma burocracia única. Não sei que forma essa burocracia assumirá, já que existe muita política envolvida. Mas penso que seria importante manter a rede livre da ação dos governos e sem censurar as pessoas que a utilizam.
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