O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define o termo semântico como sendo “o componente do sentido das palavras e da interpretação das sentenças e dos enunciados”. Tim Berners-Lee, o homem que inventou sozinho a World Wide Web em 1989, pegou emprestado este termo para batizar a internet do futuro. Trata-se da Web Semântica, um conjunto revolucionário de tecnologias que ele está desenvolvendo neste exato momento, como diretor do World Wide Web Consortium, órgão ligado ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Nesta entrevista exclusiva por telefone, este londrino de 52 anos, agraciado em 2004 com o título de Sir pela Rainha Elizabeth II, explica como imagina o futuro da maior de todas as redes e decreta: a Web Semântica será muito mais poderosa do que tudo o que conhecemos.
Antes de mais nada, devo chamá-lo de Sir Timothy, Professor Timothy ou Mr. Berners-Lee?
Tim Berners-Lee – Você pode me chamar de Tim.
Bem, Tim, minha primeira pergunta é aquela que sempre lhe perguntam: O que vem a ser a Web Semântica?
Sim, é verdade. Frequentemente me perguntam sobre isso. E o modo mais simples de explicar é: no seu computador você tem seus arquivos, os documentos que você lê, e existem arquivos de dados como agendas, programas de planejamento financeiro, planilhas de cálculo. Estes programas contêm dados que são usados em documentos fora da web. Eles não podem ser colocados na web. Um exemplo: você está procurando uma página na web para encontrar uma palestra que quer assistir ou um evento que quer participar. O evento tem um local e um horário e pessoas associadas a ele. Mas você precisa ler a página da web ao mesmo tempo em que abre a sua agenda para inserir as informações. Se quiser achar novamente aquela página, terá que digitar o seu endereço para ela voltar até ela. Se quiser os detalhes corporativos das pessoas, terá que cortar e colar as informações de uma página na web para dentro da sua agenda, porque o arquivo da sua agenda e os arquivos de dados originais não estão integrados com os dados na web. Assim, a Web Semântica trata da integração desses dados.
Quando você usa um aplicativo, deveria poder inserir seus dados de modo a poder configurá-los, informando o computador: “Eu vou nesta reunião”. Quando dissesse isso, a máquina iria entender os dados. A Web Semântica é sobre a colocação de arquivos de dados na web. Não é apenas uma web de documentos, mas também de dados. A tecnologia de dados da Web Semântica terá muitas aplicações, todas interconectadas. Pela primeira vez haverá um formato comum de dados para todos os aplicativos, permitindo que os bancos de dados e as páginas da web troquem arquivos.
Mas, afinal, qual é a diferença entre uma web de documentos e outra de dados?
Existem muitas diferenças. Pegue, por exemplo, os seus dados financeiros. Existem duas formas de observá-los. Se olhar numa página normal na web, eles parecem com uma folha de papel. A única coisa que se pode fazer é lê-los. Mas se observá-los num site da Web 3.0, você poderá, por exemplo, usar um mecanismo de busca para alterar a ordem dos dados, obtendo desta forma um acesso muito melhor aos mesmos.
Hoje, antes de realizar uma tarefa como pagar seus impostos, você precisa de um programa de gerenciamento financeiro. Ao fazê-lo, os dados não são carregados como uma página na web, mas como arquivos de dados. Esta é a diferença entre documentos e dados. Quando você procura documentos nos seus dados bancários, só é possível lê-los. Quando procura dados, pode descobrir o quanto de impostos está devendo ou qual é o total das contas a pagar. Não podemos fazer isso na web atual.
Se fosse possível, as informações reunidas nos seus dados bancários seriam convertidas num padrão que só funcionaria com bancos. Mas haverá padrões totalmente diferentes, padrões para uso em agendas, por exemplo. Hoje não se pode perguntar ao computador: “Quando foi que eu preenchi este cheque? Qual é o nome da função? Quando eu fui naquela reunião?” Não se podem conectar itens em diferentes arquivos de dados, a não ser que se use a Web Semântica. Ela é muito mais poderosa, porque nela é possível conectar dados sobre pessoas que tenham a ver com um determinado local e um determinado momento.
Mas esta integração completa entre dados pessoais, empresariais e governamentais não pode levar a uma invasão de privacidade?
Sim. Eu também tenho este medo! Um aspecto importante da Web Semântica se chama provenance. Esta palavra é um código que define de onde vêm os dados e o que pode ser feito com eles. Os padrões da Web Semântica permitem que se defina como você deseja manipular os dados aos quais tem direitos de acesso. Estamos desenvolvendo no MIT sistemas para mostrar, sem sombra de dúvidas, quais são os usos permitidos para as informações, de modo que se possa checar de onde elas vêm e o que significam, tendo-se a certeza de que não serão usadas em nenhuma forma não autorizada.
Mas não é preciso ter um mínimo de conhecimento técnico para definir estas preferências, o que não é o caso da maioria da população mundial?
Em primeiro lugar, quando se usa a Web Semântica para dados pessoais, eles não são colocados na internet aberta. Existe dentro do seu computador uma web pessoal para os dados da sua vida, para serem navegados localmente. No caso de softwares de planejamento financeiro, os sistemas dos bancos navegam através da rede no interior de um canal seguro e são executados localmente, no PC. Não se usa tecnologia de web. Seus dados pessoais não estão na internet. O que estamos falando é permitir ao usuário combinar as informações pessoais e empresariais a que tem direitos de acesso com informações públicas de modo a criar um conteúdo muito mais rico.
Sobre o fato das pessoas precisarem de algum conhecimento técnico, isso às vezes é verdade. Mas no caso de uma agenda estamos manipulando dados, certo? Quando você usa uma agenda de endereços você está criando dados. Estes programas possuem interfaces amigáveis que permitem uma utilização sem grandes problemas, a menos que se usem programas incompatíveis. Estas interfaces foram desenhadas para facilitar o seu emprego pelo usuário comum.
Estamos trabalhando para tornar esta tecnologia disponível àqueles que quiserem manipular documentos nas empresas. É verdade que não existe ainda tecnologia de Web Semântica que seja facilmente utilizável por pessoas idosas ou crianças. Mas no MIT temos um grupo de pesquisadores trabalhando exatamente nisso, produzindo programas que permitam ao cidadão comum ler, escrever e processar os seus próprios dados.
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