
A estratégia de ataque do vírus Flame é muito interessante, não posso negar. É incrivelmente complexa, explora conceitos de distribuição em cadeia, se aproveita de vulnerablidades dos certificados digitais de empresas e das vulnerabilidades do WPAD (Web Proxy Auto-Discovery Protocol). Ele certamente vai entrar para a história. Ainda assim eu não consigo me preocupar exageradamente com o Flame. A Microsoft, empresa para quem trabalho em tempo integral, revogou o certificado digital fraco que abria a brecha e a vulnerabilidade do WPAD foi contornada.
Existem jeitos mais fáceis de conseguir o mesmo tipo de ataque, como por exemplo o truque do pass-the-hash. Alem disso, o Flame não se disseminou largamente. Mas a principal razão para eu não estar tão apavorado com o Flame é que a segurança em TI já estava em mau estado mesmo sem ele. O Flame pode ter jogado mais lenha na fogueira, mas o inferno já está queimando há um bom tempo. Se você me perguntar o quando eu acho que está ruim, eu respondo alinhando alguns itens do cenário que já estavam lá antes do Flame:
Com tanta coisa ruim rolando, eu me pergunto qual seria o acontecimento dramático que faria finalmente as pessoas se levantarem e dizerem um basta. Eu cheguei a pensar que poderia ser um ataque ao Google ou a derrubada da Bolsa por um dia, mas agora duvido que mesmo eventos de tal magnitude ocupariam mais do que uma semana as manchetes dos noticiários. Na medida em que o mundo e as aplicações de missão-crítica continuam crescendo, eu prevejo que alguém, algum dia, vá cometer um cibercrime tão hediondo a ponto de causar essa ruptura. Se a história serve como referência, um evento global poderia acontecer por acidente se um programador mal intencionado perdesse o controle sobre sua criação, como foi com o worm Robert Morris em 1998, o SQL Slammer, ou o vírus Melissa Word.
Mas acidente ou não, alguém vai passar da linha e causar um grande estrago de forma muito rápida . Um dia vamos atingir esse ponto de virada e o mundo vai enlouquecer por um tempo. Os canais de notícia vão lotar de "especialistas" nos dizendo o que aconteceu e o que precisa ser feito para evitar que se repita. Vamos finalmente colocar em prática o que deveriámos ter feito há 20 anos e tirar a internet desse clima de "Velho Oeste". Eu não sei se aguento esperar porque está demorando demais para as pessoas acordarem.
Como disse antes, há formas de consertar a internet de hoje. Podemos faze-la um lugar bem mais seguro para computadores e isso nos levaria a uma internet 2.0, na qual os participantes são identificados e verificados antes mesmo de se envolver em alguma atividade que possa fazer mal a eles ou aos outros. É um passo importante, mas seria o fim do anonimato por default. Pessoas que precisassem mesmo ficar anônimas poderiam ainda navegar e trabalhar na internet original, mas aqueles de nós que quisessem mais segurança poderiam usar a nova versão. Podemos fazer isso usando protocolos já existentes rodando na infraestrutura atual.
Eu cobri essa idéia no meu plano para consertar a internet [PDF]. Meu empregador, a Microsoft, tem oferecido sua visão para uma internet mais segura com a iniciativa End-to-End Trust. E eu sempre amei as idéias da Trusted Computing Group, que há muito tem trabalhado na construção dos blocos básicos necessários para construir um mundo mais seguro. Mas voltando ao meu assunto original e por que eu não fico assim tão incomodado com o Flame e sua colisão MD5: Os problemas reais estão ligados à infraestrutura e não a um worm específico ou à exploração de uma falha na segurança. Não se distraia do problema real por conta do Flame. Se tirá-lo do contexto, vai ver que todos os fatos que eu relatei continuam reais. Nada mudou. Mas precisa mudar.
Roger A. Grimes é colunista de segurança do InfoWorld desde 2005. Ele possui mais de 40 certificados de computação e é autor de oito livros sobre segurança de computadores. Tem combatido vírus e hackers desde 1987, no início desmontando vírus para DOS. Palestrante frequente em eventos do mercado, Roger atualmente trabalha para a Microsoft como Principal Security Architect.
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Como estar preparado para essa mudança?